

Caminhada. Foi essa a palavra escolhida pelo maestro Victor Cassemiro para definir os 35 anos do Coral Cesama. E foi também por meio dela que o grupo conduziu o público, na noite deste domingo, 27, em uma viagem por diferentes lugares, tempos, culturas e sentimentos. No palco do Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora, o espetáculo “Bodas de Coral” celebrou três décadas e meia de uma trajetória, como um duradouro casamento, construído ao longo dos anos.
A caminhada começou pelo Brasil. O repertório levou o público ao sertão nordestino, às tradições e aos ritmos que fazem parte da identidade brasileira, passando pelo baião em um pot-pourri de clássicos de Luiz Gonzaga e pela cultura do cangaço, representada por “Mulher Rendeira”, de Carlos Alberto Pinto Fonseca. A viagem musical também passou pelo Centro-oeste do país, com “Pantanal”, de Marcus Viana, reverenciando ainda Minas Gerais, com “Oh! Minas Gerais”, de José Duduca de Morais, e, de modo especial, Juiz de Fora, representada por “Tristeza Pé no Chão”, do compositor juiz-forano Mamão.
Em diferentes momentos, o repertório revelou a diversidade de um país, mas também do poder da música como ferramenta de transformação. “É um convite à reflexão sobre o poder da arte nas dificuldades da vida. A música é uma forma de celebrar a vida e encontrar forças”, destacou o maestro. Nesse sentido, ele evidenciou a presença de pessoas que encontraram na música um espaço de convivência, acolhimento e transformação. É o que traduz, por exemplo, a presença de “Fantasia”, de Chico Buarque, no espetáculo: a arte como possibilidade de embelezar a vida, mesmo diante das dificuldades.
O percurso apresentado no palco também foi uma viagem pela própria história do Coral Cesama. Ao longo de sua trajetória, o grupo apresentou concertos temáticos que se tornaram marcos importantes dessa caminhada. Um deles é o projeto “25 anos nos trilhos do Brasil”, simbolizado por um trem partindo de Minas Gerais para percorrer, por meio da música, diferentes regiões do país. Outro destaque é “O Grito dos Palmares”, projeto considerado por Victor Cassemiro como a “menina dos olhos”. Dedicado à cultura afro-brasileira, o espetáculo celebrou a história e a resistência da população negra por meio de diferentes manifestações musicais, especialmente o samba. “Foi uma oportunidade para refletir sobre a história do nosso país, sobre a diversidade cultural e sobre as contribuições da população negra para a nossa identidade”, destacou o maestro.
A preocupação com a preservação dos recursos naturais também encontrou espaço no repertório. Em “Planeta Água”, de Guilherme Arantes, o coral trouxe ao palco uma reflexão sobre o ciclo da água e a responsabilidade de preservar esse recurso. “Cuidar da água é cuidar da vida e do futuro das próximas gerações”, enfatizou Victor.
Aliás, para o Coral Cesama, a relação com a água não é apenas uma escolha artística. Está na própria origem do grupo, criado em 1991 e vinculado desde então à Companhia de Saneamento Municipal (Cesama), com a proposta de promover a conscientização ambiental e divulgar a música. Prestigiando a apresentação, o diretor-presidente da Cesama, Lincoln Santos Lima, destacou a emoção de acompanhar a comemoração. “Foi maravilhosa a apresentação. Foi um prazer estar aqui hoje vendo esse espetáculo. Só tenho a cumprimentar a todos por esse coral tão maravilhoso.”
Se existe um elemento capaz de explicar os 35 anos do Coral Cesama, ele está nas pessoas. Por isso, a celebração também abriu espaço para aqueles que fizeram parte da história do grupo e hoje estavam na plateia. Atendendo ao convite feito pelo coral, ex-integrantes subiram ao palco para cantar “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, ao lado dos atuais coralistas, simbolizando um encontro entre passado, presente e futuro. Entre elas estava Ana Paula Delage, que integrou o grupo entre 2008 e 2014. “A gente cantava em todos os lugares, fiz muitas apresentações legais, em lugares especiais, e as lembranças são maravilhosas.”
A cena também ganhou um significado especial com a presença de Jéssica Bahia, de 16 anos, filha do funcionário da Cesama e também integrante do coral, José Antônio de Assis. A história da estudante com o grupo começou aos seis anos, justamente com uma participação em uma apresentação. Depois disso, ela nunca mais parou. “Desde então, estou presente cantando. O coral é muito acolhedor. As pessoas e as músicas cultivam muito a diversidade, a cultura, algo que eu gosto bastante.”
Como surpresa para o público, o grupo apresentou uma música inédita, composta pelo integrante José Macário. Mais do que uma homenagem ao passado, a canção foi um convite à participação do público, entoando, juntos, o refrão: “A nossa alegria é cantar. Somos o Coral Cesama, cantamos em todo lugar”. Refrão que ganha ainda mais sentido, diante do depoimento de João Barbosa Leopoldo, integrante do coral há 26 anos. “A minha vida tem dois sentidos: antes e depois do coral. Quando achamos que já conquistamos todas as amizades, aqui a gente vê que tem muito mais a conquistar”, se orgulhou.